Vale a pena fazer mais tempo de cursinho do que estudar fora:
professores conversam sobre medicina

Atualizada: 24 de Julho/2017

Fonte: G1

Docentes da USP alertam que a opção de estudar no exterior pode ser sedutora, mas não compensa no momento da revalidação do diploma.

Dois professores de medicina na Universidade de São Paulo (USP) ouvidos pelo G1 garantem: é preferível passar mais alguns anos no cursinho do que fazer a graduação em outro país. A endocrinologista Camila Secches e o patologista Paulo Saldiva, convidados do programa, discutiram os mitos e os caminhos que a profissão oferece.

"Como nosso aluno põe a mão na massa, ele tem mais habilidade depois do curso do que aqueles que vêm de fora. Eles só encostam em um doente depois da formatura. Eu digo que o contrário vale a pena: fazer medicina aqui e residência no exterior. Mas aí tem uma prova muito rigorosa, mas não diferente dos exames de qualificação norte-americanos e europeus", avalia o professor Paulo.

A transmissão ao vivo recebeu muitos comentários de vestibulandos que se preocupam com o tempo gasto para conseguir a aprovação no curso de medicina: muitos temem ficar velhos demais para passar pelos anos de curso, residência e especialização. Os professores descartaram a possibilidade. Segundo eles, é até melhor ter maturidade para enfrentar a graduação. "A medicina é muito bacana porque parece que quanto mais velho o profissional fica, melhor sabe. Envelhecer nessa carreira é muito bom", garante a professora Camila.

"O médico acumula patrimônio e status, inspira mais confiança. Existe uma longevidade profissional muito grande. Na minha experiência, alunos que entraram mais tarde, em geral, se saem muito bem na faculdade." (Paulo Saldiva, professor de medicina da USP)

Os professores confirmam que é uma profissão com salários e empregabilidade alta, mas alertam: a medicina exige horas de estudo, trabalho e dedicação, o que acarreta em sacrifícios pessoais. "A medicina é a mais exata das ciências humanas e a mais humana das ciências exatas. Tudo que interessa ao ser humano, à dimensão humana, cabe quando se cuida de pessoas. É difícil o profissional não encontrar uma tribo em que ele se enquadre. Se essa for a medida do sucesso, ele tem muitas chances de ser feliz. Mas se escolher sem vocação, aí não tem um dia em que ele vá motivado para o trabalho", adverte o professor Paulo.

A mesma paciência exigida dos estudantes de cursinho é recomendada pelos professores no momento de encarar a progressão profissional. Segundo eles, o médico é um profissional cuja ascensão é lenta e gradual, e o formando deve ter essa serenidade em mente no momento em que começar a trabalhar. "Em algumas profissões, quando a pessoa se forma e é boa no que faz, consegue se empregar e ter um retorno financeiro rapidamente. Na maioria das vezes, na medicina, isso não acontece. Tem a perspectiva de um retorno, de uma carreira sólida, mas é construída gradualmente", descreve a professora Camila.

"Os doentes vão procurando o profissional, a cartela de pacientes vai aumentando... É preciso se preparar para se formar e ter paciência planejamento para contar com essa progressão profissional acontecer aos poucos." (Camila Secches, endocrinologista especialista em nutrologia)

Questionados sobre a necessidade de lidar com a morte, os professores foram categóricos: isso faz parte da profissão. "O difícil da profissão é lidar com a complexidade das diversas formas de vida que nos procuram. O médico vai ter medo. Mas nessa profissão, o contrário do medo é a fé de que o paciente vai melhorar. O profissional deve lidar com as expectativas do doente, dentro das limitações da medicina. É preciso fazer com que as pessoas descubram formas de viver nas condições que elas têm. Hoje, eu digo que o maior mistério da profissão não é lidar com a morte, mas com a complexidade do viver", comentou o professor Paulo.

"É necessário saber lidar com a morte porque o médico precisa se proteger como profissional. Também é importante mostrar para o paciente que não se trata de evitar a morte, que é algo natural, mas garantir a qualidade de vida dele" (Camila Secches)

Fonte:

www.g1.globo.com

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