Quanto mais especializado - já existem cursos de engenharia aeronáutica, de agrimensura, de alimentos, cartográfica, agrícola, ambiental, florestal, entre outras - melhor o campo de trabalho. Com função de chefia, engenheiro pode ganhar mais de R$ 8.000 mensais.
Há algumas décadas os pais só queriam que seus filhos fossem médicos ou engenheiros, devido à tradição e ao glamour destas profissões. Compreensível, afinal, a primeira escola de engenharia no Brasil foi fundada em 1808 - a Real Academia Militar do Rio de Janeiro. Naquele tempo, era necessário construir o país: casas, edifícios, pontes, estradas, represas, e o filho - homem - que escolhesse essa carreira era o orgulho da família. De lá para cá, muita coisa mudou, mas a engenharia civil ainda conserva o seu glamour, agora mais voltada às especialidades ligadas à tecnologia, como computação, engenharia mecatrônica e de telecomunicações.
Se há uma carreira que se especializa cada vez mais, esta é a engenharia. Novos cursos surgem a cada ano: engenharia aeronáutica, de agrimensura, de alimentos, cartográfica, elétrica e eletrônica, de materiais, mecânica, metalúrgica, de minas, de produção, industrial, química, sanitária, têxtil. Na área de ciências agrárias, encontram-se as engenharias agrícola, ambiental, florestal e hídrica.
No entanto, dados do Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira), entidade ligada ao MEC (Ministério de Educação), apontam uma defasagem significativa entre o número de matriculados em cursos de Engenharia anualmente - 234.641 (o equivalente a 6% do total de cursos superiores) - e o número de concluintes - 21.849 alunos por ano. A carreira ocupa atualmente o quarto lugar no ranking de todas as faculdades, estando atrás apenas de administração, direito e pedagogia.
Esta enorme defasagem entre ingressantes e concluintes não é algo restrito ao curso de Engenharia. O professor Amir Limana, coordenador do Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes - Enade, considera que o desequilíbrio é natural. "Quando um curso é iniciado, durante quatro ou cinco anos, dependendo do curso, não haverá concluintes, apenas ingressantes e as matrículas se acumulam ao longo dos anos, até a conclusão da primeira turma", analisa. "Por exemplo, um curso com 60 vagas acumulará 240 matriculados ao longo do tempo de integralização da primeira turma. Deve ser considerado também que existem prazos mínimo e máximo para integralização. Nesse período, ocorrem várias situações como alunos com matrícula trancada, cancelamento de vaga pela IES, abandono justificado, transferência para outra IES, reprovações, jubilamento etc." Portanto, não se trata de um fenômeno ligado diretamente à área de engenharia, mas generalizado, quando se fala em eduação superior no Brasil.
Devido à esta evasão, os números brasileiros ainda são tímidos, se comparados aos da China e da Índia, onde 200.000 engenheiros se formam por ano. Na Índia, há inúmeras universidades de nível mundial e formação em massa de cientistas, o que tem impulsionado a indústria de software no país, que já exporta quase US$ 10 bilhões por ano.
A engenharia civil se vale do déficit habitacional urbano do Brasil, que atinge dez milhões de moradias, e do volume de novas estradas, por conta das recentes privatizações de rodovias, para se manter entre uma das mais procuradas carreiras pelos estudantes.
Fausto Camilotti é um exemplo de profissional que enveredou pela engenharia de tráfego e trabalha em uma concessão rodoviária. Embora esteja formado em engenharia civil há apenas dois anos, Fausto trabalha com engenharia há 5 anos e meio. "Quando estava finalizando o segundo ano do ensino médio, e me preparando para o primeiro vestibular como trainee, descobri que o curso de engenharia completava todas as minhas aptidões", relembra.
Fausto acredita que o mercado está passando por uma fase ruim. "Mesmo com o aquecimento enganoso da economia, em que o governo prega a geração de 1,5 milhões de novos postos de trabalho na indústria em 2004, acredito que o mercado da construção civil passa por uma fase bastante delicada. Os profissionais desta área estão diversificando o campo de atuação", opina.
Prova disso, explica ele, são as grandes empreiteiras do país, que passaram a investir em outros ramos, incluindo o mercado das concessões rodoviárias e de energia.
Para se diferenciar da concorrência, o estudante deve buscar um curso de especialização. "Não acredite que o curso de graduação é o suficiente para atuar no mercado e ter um bom emprego", recomenda Fausto.
"Os bons profissionais têm espaço no mercado, principalmente aqueles que realmente se dedicam à profissão que escolheram", acredita. Fausto gostaria que, daqui a oito anos, seu salário mensal fosse de R$ 12.500.
Já Manoel Neris, engenheiro industrial e mecânico, 53 anos, com mais de 20 anos de experiência, acredita que após 10 anos de trabalho os valores vão depender da carreira trilhada pelo engenheiro. "Devemos levar em conta que muitas vezes o engenheiro deixa de exercer a profissão para chefiar alguns quadros, exercendo atividades administrativas de supervisão. Sem a função de chefia raramente o valor ultrapassa R$ 8.000. Acredito que a média fique em torno de R$ 5.000". No início de carreira, há estudantes que aceitam o salário mensal de R$ 1.000 para entrar no mercado de trabalho, mas o piso da categoria gira em torno de R$ 1.800 a 2.000.
Manoel dedica-se à carreira de professor universitário, outra opção de trabalho para o profissional mais graduado. Dá aula há mais de 18 anos na Universidade Santa Cecília, em Santos, e também na Faculdade Editora Nacional e na Escola Técnica Jorge Street, ambas em São Caetano do Sul, São Paulo. Também trabalha na alfândega de Santos há 4 anos.
Mas o local onde Manoel mais gostou de trabalhar foi na Ultrafértil, em Cubatão, devido ao tipo de atividade da empresa, que permitia acesso à tecnologia de ponta. "A escolha da carreira veio em decorrência do meu interesse nas disciplinas de exatas durante o ensino médio, motivado por bons professores, em uma escola pública diferenciada", lembra.
"A área de mecânica ressente-se da falta de desenvolvimento de projetos nacionais, aliada ao fato de que muita coisa que poderia ser projetada em território brasileiro acaba sendo importada, limitando desta forma o mercado de trabalho", analisa. "O que tem sido observado é que o pessoal tem sido deslocado para as áreas de produção, controle e manutenção, ficando a área de projetos restrita a poucos profissionais".
Para ele, o começo da carreira é de desafio. "É quando sua capacidade está sendo testada. As dúvidas que surgem levam você a conferir rigorosamente todos os cálculos e ações desenvolvidas, devido ao medo de errar. A época mais perigosa é quando os trabalhos começam a se tornar repetitivos, quando então você relaxa e está mais propício a um erro. Após 25 anos de profissão, a abrangência de informações que você possui permite que a análise dos fatos seja feita mais rapidamente, já que você agora conhece os pontos onde os problemas costumam aparecer".
As dicas que ele dá ao estudante de engenharia são: dominar mais duas línguas, estagiar em empresas de atividades diversificadas durante o curso para aumentar a experiência e realizar o maior número possível de cursos extracurriculares, enriquecendo o currículo. "Após a formação, eu aconselharia que não permanecesse mais do que cinco anos em uma mesma empresa, procurando sempre novas empresas com tecnologia de ponta para trabalhar. Lógico que essa regra não pode valer para todos, pois muitas vezes a progressão funcional pode se dar dentro da mesma empresa, contrariando o ditado que santo de casa não faz milagre. Importante é observar sempre se a empresa não está se defasando em relação ao mercado".
Se para o homem se manter em uma posição boa dentro da carreira já é difícil, para a mulher engenheira é ainda pior. Mesmo assim, elas costumam se destacar na profissão, a exemplo da engenheira Norma Gebran Pereira, presidente do Sinaenco - Sindicato Nacional das Empresas de Arquitetura e Engenharia Consultiva e membro do Conselho Consultivo do IE - Instituto de Engenharia, que foi indicada para o prêmio "As mulheres mais influentes do Brasil", uma iniciativa da Revista Forbes em parceria com a Gazeta Mercantil e o Jornal do Brasil.
Nascida em Goiânia, Norma graduou-se em engenharia civil pela Universidade Federal de Goiás, com pós-graduação em hidráulica e hidrologia. É uma das fundadoras do Sindicato, que reúne cerca de 9.000 empresas brasileiras de arquitetura e engenharia, voltadas para o projeto e a consultoria. Norma está na presidência do Sinaenco desde 2002, tendo sido reeleita em 2003 para comandar a entidade por mais dois anos - é a única mulher a conduzir uma entidade da engenharia no Brasil. Norma é um exemplo bem-sucedido, em um panorama em que as mulheres, de alguns anos para cá, passaram a conquistar mais espaço dentro da carreira de engenharia.
Prova disso é o aumento do número de alunas engenheiras. A comparação dos dados de 1991 e 2002 do Censo da Educação Superior realizado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira (Inep/MEC) indica que, em 12 anos, o número de alunas nas engenharias cresceu de 25.500 para 42.800 - um aumento de 67,8%. No mesmo período, a quantidade de homens nestes cursos ampliou 38,7%. Com essa diferença, a representatividade feminina em relação ao total de matrículas subiu de 17,4% para 20,3%.
Fonte: Universia Brasil